Varetas partidas e panos rasgados

Não há nada como acordar com uma bela manha de sol, ainda que seja, supostamente, Outono… A realidade tinha-se mantido esta até á bem pouco tempo, quando de repente, as manhas deixam de ser solarengas para se tornarem assombradas por umas pesadas nuvens…

Numa das minhas últimas quartas-feiras a minha rotina foi igual a todos os outros dias, acordar as 8:00 em ponto, arrastar-me da cama em modo zombie, tomar banho em modo zombie, vamos ser doidos e exagerados, esboçar um “bahh daaaa” em sinal de bom dia no percurso até ao banho… Até aqui nada de novo, fresquinho e tal, mas é de manha.

“Acorda, vamos para as aulas”… E assim começou o início do fim! Como nunca antes visto, nos dias anteriores, começou a chover a potes, mas literalmente a potes… E não fosse Aveiro, além da chuva um vendaval louco.

Dá para jogar um jogo e eu ao longo do dia joguei, foram uns fantásticos 7! Imaginem-me a passar ao lado dos caixotes do lixo e a dizer “Aveiro 3 – Guarda Chuvas 0”, todo o santo o dia… E depois há aquelas vezes em que me ponho a pensar: “ E se fosse com o meu guarda-chuva?”.

Vamos então viajar para aquela dimensão paralela em que eu uso guarda-chuva em vez de andar a apanhar molhas descomunais… Sim porque eu tenho a sorte de nos primeiros 30 segundos de chuva intensa do ano apanhar logo com ela… Apartes à parte.

Então ali vou eu todo pimpão com o meu guarda-chuva modelo “párachuvatoda 3000 S2”, comprado na loja dos chineses mas um fiel companheiro de chuvadas, ali todo artilhado, abertura automática retardada (e é mesmo retardada, carrega-se no botão e há um momento de suspense em que não se sabe se vai abrir ou não), tamanho condensado, pega reforçada e por ai fora, eu se quisesse até dizia que era em preto metalizado só para parecer coisa luxuosa…

E lá estou eu e o meu compincha para a tempestade, a quem a partir de agora vou passar a chamar “filho de uma p**a”, por razões óbvias e sentidas por toda a gente que usa um guarda-chuva em cidades que não gostam de vos ver secos e confortáveis. Estamos então a atravessar uma grande avenida, sem árvores, sem prédios, sem nada, basicamente no meio de um descampado, quando de repente começa a chover, e pum abertura retardada a funcionar e lá começo eu a agitar o “filho de uma p**a” para trás e para a frente para ele se abrir e eu me abrigar e acontece mais ou menos comigo aos saltos a agitar o guarda-chuva nas mãos e a dizer “abre-te meu filho de uma p**a que está a chover cara**o”, lá se abre e lá vou eu todo contente, até que vem o vento e o guarda-chuva dá uma guinada, e lá vou eu feito parvo atrás do guarda-chuva no meio de uma avenida movimentada. Pronto ok, não vale a pena lutar com o vento pelo guarda-chuva, vamos empenhar o guarda-chuva como se fosse um escudo e vamos ver se conseguimos um bocadinho de protecção. E assim vai, até que se começa a dar conta da cara seca e da nuca a escorrer água, faz-me sentir híbrido, meio peixe meio humano… um sereio autêntico.

E o dia continua, cheio deste tipo de peripécias, com uma poça de água nas pernas características daqueles abraços que o guarda-chuva nos dá quando se encosta a nós enquanto está fechado… Deve ter frio eu sei, mas porra eu também tenho e não fui feito propositadamente para a chuva!

Chega então uma altura em que uma pessoa fica ansiosa por ir para casa, mas está ali, a ver a chuva cair, até que pensa que não vale a pena estar ali a anhar e que se lixe, vamos embora que eu tenho sítios mais importantes e produtivos para estar, até por que estar ali a contar gotas de água faz me sentir burro, porque é mais ou menos “1.2.3.4.5.6.7.8. oh bolas perdi-me faltou-me contar aquela, aquela, aquela, aquela…”. E acabamos por ser heróis e enfrentar a tempestade e estamos a ir, e estamos quase a chegar, e para o estado do tempo estamos muito muito secos, até que chegamos a uma pequena rua, 10 metros de horror, 10 metros que assombram os pesadelos dos guarda-chuvas, 10 metros que assombram as pessoas com necessidade de manter o seu guarda-chuva vivo… E então nessa pequena distancia, lá vem ela, a rajada de vento mortífera, e ela sem aviso vira o guarda-chuva do avesso, dá lhe uma facada e deixa-nos ali… Caídos, de joelhos, a chorar a perda do nosso amigo, ou pelo menos parece, porque por esta altura só não me afogo porque é chuva, a segurar a sua frágil pega enquanto as suas hastes vergadas nos dizem “vai, vai sem mim”…  E lá libertamos um “ooooh fodasse” todos encharcados usamos o “filho da p**a” como bola e fazemos pontaria ao caixote do lixo, encolhemos os ombros e fazemos o resto do percurso todo à chuva e a pensar que toda a gente vai dizer “olha que idiota que ali vai sem guarda-chuva”.

O meu guarda-chuva ainda é vivo, estas provas de morte foram passadas por um amigo mais impermeável e resistente, mas eu temo perder o meu guarda-chuva numa destas situações… E você? Se você ama o seu guarda-chuva ligue “707 guarda-chuva” e saiba como proteger o seu guarda-chuva… A vida do seu guarda-chuva depende de si, depende de todos nós…

Em memória aos 8 guarda-chuvas encontrados em caixotes do lixo nas ruas de Aveiro neste fatídico dia e de todos aqueles nunca encontrados…

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